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Sobre o tema
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A temática "Educação em Cruzo: Territorialidades, Heranças Culturais e Tecnologias" tem como intuito trazer à baila reflexões e inquietações sobre o tempo que nos toca. E este é um tempo de aceleração das transformações educacionais e dos impactos das tecnologias digitais; um cenário que, a despeito das certezas fabricadas pelo tecnosolucionismo, tem nos levado a um encolhimento do mundo, à redução do múltiplo ao unitário, a uma compressão de margens onde, em nome de um certo tipo de inovação e desenvolvimento social, diversas pedagogias vão sendo arrastadas pela corrente do esquecimento. Entretanto, os territórios existem - e neles, as autonomias existem. E assim, sentimos que ao percorrer as veredas que ainda possibilitam a educação ser múltipla, plural, transgressora e que se move na contra-corrente da inovação que procura negar a diferença, traremos para este ano uma temática que gira em torno das pedagogias que seguem criando, reinventando-se e reexistindo em meio às transformações sociais, políticas e tecnológicas que avançam na produção da monocultura humana.
Nesse esteio, o evento pretende colocar em discussão as complexas dinâmicas que, a um só tempo, moldam o presente e possibilitam vislumbrar futuros outros, movendo nossos sentidos para desvendar as tensões, contradições e desafios emergentes no que chamamos de "cruzo”. Enraizados neste tempo presente-passado e presente-futuro, buscamos discutir as relações entre tecnologia e educação para além da mera celebração dos avanços nos aparatos tecnológicos. Visamos, outrossim, reconhecer que a tecnologia não é neutra e que ela produz
efeitos nos modos de ser, pensar, estar, habitar e agir, estabelecendo padrões hegemônicos, pouco afeitos à heterogeneidade. Com isso, queremos problematizar e questionar criticamente os modos como a tecnologia impacta e é impactada pelo ethos das sociedades, com vista à construção de espaços educacionais que promovam a equidade e a valorização da pluralidade de experiências e conhecimentos.
Assim, a Semana da Educação de 2025 se move pelo sentimento de que os impasses advindos desse período de “cruzo” convidam a uma reflexão sobre o que se gostaria de preservar para as novas gerações. Quais seriam os saberes, valores, modos de pensar e de fazer que se quer preservar? Como poderiam se articular às novas tecnologias? Como nos lembra James Baldwin em entrevista à Nikki Giovanni, é importante que se pense nos jovens e que seja possível favorecer, entre eles e elas, o cultivo do que se entende como importante para a própria vida e para a convivência. Nessa direção, não se pode desconsiderar o papel dos saberes dos povos originários e afrodiaspóricos, reconhecendo as tecnologias que têm produzido. No que respeita aos saberes afrodiaspóricos, Beatriz do Nascimento (2006) chama atenção para o Quilombo não somente como uma recriação de África, mas como um modo de viver, construir história e suportes da vida nos diferentes territórios. Quais seriam os saberes educativos entretecidos ao longo do tempo?
A compreensão da terra enquanto identidade, cultura e comunidade não é uma novidade. Povos originários e afrodiaspóricos traçam suas gerações em comunhão com a sua terra há muito tempo. Essa íntima relação entre identidade e território pode ser ilustrada pela história de um pesquisador europeu do começo do século XX no território dos Hopi, contada por Ailton Krenak:
"[...] Ele tinha pedido que alguém daquela aldeia facilitasse o encontro dele com uma anciã que ele queria entrevistar. Quando foi encontrá-la, ela estava parada perto de uma rocha. O pesquisador ficou esperando, até que falou: “Ela não vai conversar comigo, não?”. Ao que seu facilitador respondeu: “Ela está conversando com a irmã dela”. “Mas é uma pedra.” E o camarada disse: “Qual é o problema?”"(Krenak, 2019, p. 11).
Também Krenak, em diálogo com Eduardo Viveiros de Castro, resgatou uma metáfora pertinente para pensarmos em “ciências”, “conhecimentos” e quem são aquelas e aqueles que criam e detém o saber - os “conhecedores do conhecimento”, portanto. Viveiros de Castro e Krenak falavam sobre a particularidade de cada partícula; isto é, o que cada sociedade, cada território, sustenta como elementos próprios em seu viver comunitário. Isso abre uma infinitude de possibilidades. Ou, nas palavras de Krenak: "os brancos estão interessados na contabilidade do mundo: quanto mundo tem pra ele comer. E os povos indígenas estão interessados em quantos mundos eles podem criar." (Fala presente no vídeo "Partículas Particulares", disponível no Youtube. Clique aqui para saber mais.). Nessa criação de mundos residem as heranças culturais e as leituras para educação, inovação e tecnologias. São frutos da “vontade de ser e da negação de deixar de ser” (MALDONADO, 2010). O que seriam tecnologias neste contexto? E inovação? Teria a modernidade digital o monopólio dessas ferramentas?
Ao tratarmos das tecnologias na Semana de Educação deste ano, propomos um deslocamento conceitual: mais do que dispositivos digitais ou ferramentas de inovação, entendemos tecnologia como uma prática cultural, como um ethos. Isso implica considerar as formas pelas quais diferentes povos constroem, transmitem e atualizam saberes com base em outros modos de existir e produzir mundo. Tal perspectiva nos distancia do tecnosolucionismo que hegemoniza o debate contemporâneo, centrado na aceleração, no controle e na obsolescência programada, e nos aproxima de uma compreensão ampliada da técnica, como dimensão da vida e da comunidade.
Nesse sentido, problematizar as tecnologias é também discutir os seus efeitos sociais, pedagógicos e éticos. O uso irrestrito de plataformas digitais em contextos educativos, por exemplo, levanta questões sobre vigilância, privatização dos dados, padronização dos processos de ensino e apagamento das diferenças culturais e territoriais. Por trás da aparente neutralidade técnica, há projetos políticos que moldam o currículo, o tempo escolar, o corpo docente e discente, e as formas de ensinar, aprender e de estar-sendo no mundo. Portanto, as tecnologias não são apenas meios, mas também narrativas e regimes de verdade que demandam leitura crítica.
Frente a isso, perguntamos: que tecnologias queremos cultivar? Como as práticas educativas podem engendrar outras formas de inovação, que não se baseiem na negação do passado, mas na afirmação de heranças e resistências? Ao reconhecer tecnologias ancestrais, comunitárias e sustentáveis, propomos um reposicionamento político da educação. Um posicionamento que valorize as metodologias contra-hegemônicas e promova formas de aprendizagem que ressoem com os modos de vida dos povos historicamente silenciados.
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Educação Territorial e Pedagogias da Resistência -> Este cruzo temático tem como objetivo a reflexão e discussão sobre os saberes originários e afrodiaspóricos no campo da educação, emergindo pedagogias que suscitam uma educação múltipla, plural e transgressora.
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O papel da educação nos cruzamentos entre a tecnologia e a vida -> Este cruzo temático busca problematizar e questionar criticamente os modos como a tecnologia impacta e é impactada pelo ethos das sociedades, com o fim de construir espaços educacionais que promovam a equidade e a valorização da pluralidade de experiências e conhecimentos, considerando as questões de saúde mental, as relações sociais e os desafios ambientais, impactados pelas tecnologias digitais na educação.
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Culturas escolares: (des)encontros e memórias -> Este cruzo temático propõe refletir sobre a escola como espaço histórico e afetivo, atravessado por temporalidades, conflitos e lembranças. Diferente de uma abordagem centrada nas práticas pedagógicas insurgentes nos territórios, este cruzo volta-se à cultura escolar como campo de reflexão sobre os processos formativos, os rituais institucionais e as marcas subjetivas que compõem o cotidiano escolar. A partir de uma perspectiva didática, filosófica e histórica, busca-se compreender como a escola se constitui, se transforma e é vivida por seus sujeitos, entre silenciamentos e reinvenções.
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Ética, Plataformização e Governança Digital -> Este cruzo temático visa problematizar e analisar criticamente os efeitos sociais, pedagógicos e éticos das tecnologias digitais na educação, da inteligência artificial, da plataformização da educação, bem como a crescente regulação imposta pelas tecnologias digitais, promovendo a discussão sobre a necessidade de uma governança digital que assegure a proteção de dados, a equidade no acesso e a manutenção da autonomia pedagógica.